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segunda-feira, outubro 31

Os ombros suportam o mundo



Os ombros suportam o mundo

Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, outubro 11

Marca


Vinda do quase nada entraste furacão e saíste tempestade. Escreveste a fogo, atravessaste a direito a soleira da porta, não assomaste na sala, foste entrando com essa força e esse querer só teu. Há sempre alguém que nos marca, que deixa as suas digitais no coração. No coração e na alma. De tão iguais nos descobrimos tão diferentes. Hoje, bem cedo na rua deserta, uma aragem levemente fria acordou-me para o dia, este dia em especial. Talvez a  folha caída, bem no meu caminho, no chão deste Outono que teima em não as desprender, fosse a tua lembrança a persistir. Ou seria saudade? Não é por não escrever mais versos que alguém deixa de ser poeta. Assim és tu. Tem um bom dia, amiga.