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segunda-feira, outubro 31

Os ombros suportam o mundo



Os ombros suportam o mundo

Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade

4 comentários:

Simone Huck disse...

Adorei a cara nova da "alma gêmea"...

E sobre o post... meio que casa com o que escrevi.
Sinto pena ou esperança?
Já não sei.

Beijos meninas queridas!!!!
Si

JPD disse...

Extraordinário poema.

Boa escolha.

Bjs

via disse...

muito bonito.

Pedrasnuas disse...

É muito peso!!! Gostei do texto/poema!!!