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segunda-feira, março 26

Uma baleia vê os homens


 
"Sempre tão atarefados, e com longas barbatanas que agitam com frequência. E como são pouco redondos, sem a majestosidade das formas acabadas e suficientes, mas com uma pequena cabeça móvel onde parece concentrar-se toda a sua estranha vida. Chegam deslizando sobre o mar mas não nadam, quase como se fossem pássaros, e infligem a morte com fragilidade e graciosa ferocidade. Permanecem longo tempo em silêncio, mas depois entre eles gritam com fúria repentina, com um amontoado de sons que quase não varia e aos quais falta a perfeição dos nossos sons essenciais: chamamento, amor, pranto de luto." 

A mulher de Porto Pim, Antonio Tabucchi

quarta-feira, março 21

Pergunto-te Onde se Acha a Minha Vida



Pergunto-te onde se acha a minha vida. 
Em que dia fui eu. Que hora existiu formada 
de uma verdade minha bem possuída. 

Vão-se as minhas perguntas aos depósitos do nada. 

E a quem é que pergunto? Em quem penso, iludida 
por esperanças hereditárias? E de cada 
pergunta minha vai nascendo a sombra imensa 
que envolve a posição dos olhos de quem pensa. 

Já não sei mais a diferença 
de ti, de mim, da coisa perguntada, 
do silêncio da coisa irrespondida. 

Cecília Meireles, in 'Poemas (1942-1959)'